terça-feira, 26 de outubro de 2010

Natimortalidade na suinocultura


INTRODUÇÃO
A natimortalidade na suinocultura é um problema amplamente discutido e estudado, mas, apesar disso, muitos pontos permanecem obscuros na interpretação dos índices encontrados no dia-a-dia. O total de leitões nascidos em uma leitegada é composto pelo número de leitões nascidos vivos, natimortos e mumificados. As diferentes genéticas sugerem alguns parâmetros de produtividade no que diz respeito ao total de leitões nascidos e também utilizam informações geradas a partir de diferentes programas de gerenciamento de dados para definir perdas aceitáveis por natimortos e mumificados. O ponto principal ao início da visita à granja é que o índice de natimortos protocolado seja real, anotado de forma precisa e confiável.
Muitas granjas estabelecem valores alvo ou metas para o quesito natimortos. Com isso, em pouco tempo, esses valores são normalmente alcançados, pois a equipe de maternidade é cobrada insistentemente para alcançar uma meta irreal de, digamos, 3% de natimortos.
CONSEQUÊNCIA DAS FALHAS NOS REGISTROS DE NATIMORTOS
Como os natimortos compõem diretamente o total de nascidos por leitegada, é comum observar nas granjas que não registram o número real de natimortos, uma redução no tamanho das leitegadas. Ou seja, para atingir a meta estipulada, muitos natimortos são omitidos nos registros de parto, conseqüentemente a meta é atingida, mas o tamanho das leitegadas fica comprometido.
QUAL O ÍNDICE "REAL" DE NATIMORTOS QUE PODE SER ACEITO?
Deve ficar claro que é muito importante poder confiar nos registros qualitativos e quantitativos que acontecem nos partos. Somente de posse de dados confiáveis é que será possível avaliar a situação da unidade.
Os programas de computador empregados no gerenciamento dos dados de produção das granjas normalmente indicam, única e exclusivamente, o percentual de natimortos por leitegada. Entretanto, para realizar uma avaliação detalhada do problema na unidade, com vistas às recomendações para solucioná-lo, é importante diferenciar os tipos que compõem o percentual de natimortos protocolados.
Os leitões natimortos podem ser classificados em pré-parto, intraparto e "pós-nascimento" (pós-parto). Para fins didáticos, esse último (pós-nascimento) não deveria ser protocolado como natimorto e sim como mortalidade perinatal. Entretanto, sob condições práticas enquadra-se como natimorto.
Dependendo do tipo de natimorto identificado será possível direcionar medidas de manejo específicas visando tratar o problema. Na Tabela 1, podem ser observadas as características a serem levadas em conta para o diagnóstico diferencial dos 3 tipos de natimortos (pré-parto, intraparto e pós-nascimento).
Tabela 1: Diagnóstico diferencial de Natimortalidade
O percentual de natimortos pré-parto deve apresentar valores inferiores a 1%. Valores superiores levam a suspeitas de causas infecciosas ou de falhas no manejo no final da fase gestacional (Figura 1). O percentual de natimortos intraparto deve oscilar entre 3 e 5%. Em granjas com valores superiores, seria possível atuar otimizando o manejo de atendimento ao parto, para minimizar essas perdas. Os "natimortos pós-nascimento" são leitões que nasceram vivos e morreram, possivelmente por falta de assistência na fase neonatal ou por lesões cerebrais decorrentes de anóxia ou hipóxia durante o parto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em caso de suspeita de alta mortalidade ou mesmo de valores muito abaixo dos esperados, preconiza-se proceder com avaliações para caracterização do problema. Tendo confiança nos dados a serem avaliados e suspeitando-se que o percentual de natimortos está alto, deve-se providenciar o diagnóstico com a identificação dos natimortos em pré-parto, intraparto e pós-nascimento. Baseado na identificação do tipo de natimorto será possível direcionar as atenções para aquela categoria que por ventura estiver com valor superior ao esperado.
Dica baseada no artigo: Natimortalidade na suinocultura tecnificada: A importância de um diagnóstico correto. Bortolozzo, F. P. et al. Suinocultura em foco. 9ª Edição.
fonte: TECSA










terça-feira, 19 de outubro de 2010

A importância da fase de terminação no sistema de produção de suínos. - por Werner Meincke

Fica evidente a necessidade dos produtores estarem cada vez mais focados nos fatores que determinam a eficiência geral de uma unidade de terminação.

De uma maneira geral podemos definir as principais aspirações da cadeia produtiva da suinocultura da seguinte forma:

a) Produtor:

Possuir um sistema padronizado de tipificação de carcaças com valorização da qualidade de carne. Essa reivindicação está diretamente ligada aos grandes investimentos que os produtores vêm realizando na área de melhoramento genético de seus plantéis e que nem sempre são devidamente valorizados, sem considerar as freqüentes mudanças que ocorrem na política de remuneração, tornando muito confusos na ótica dos produtores, os critérios atualmente utilizados para tipificar e premiar as carcaças.

b) Indústria:

Elevar os pesos de abate e reduzir as variações que atualmente ocorrem nos pesos das carcaças. Com isso ficaria extremamente facilitada a produção de cortes padronizados, bem como a determinação de seus rendimentos com agregação de valor.

c) Consumidor:

A tendência do segmento de consumo é de estar cada vez mais focado na questão da Segurança Alimentar.

Se analisarmos como sendo efetivamente essas as principais aspirações da cadeia produtiva, vamos verificar que a fase de terminação passa assumir uma importância crescente e muito mais significativa do que normalmente lhe é atribuída. A impressão geral que se tem, é que quando os animais atingem um peso entre 22 a 25 kg, tudo está resolvido bastando a partir daí, apenas provê-los com água e ração de boa qualidade, no entanto sabemos que mais de 60% do custo de produção ocorre após esse período. Em outras palavras podemos dizer que os investimentos visando maximizar a eficiência durante os períodos de crescimento e terminação são fundamentais para viabilização da atividade. Para comprovar e ratificar essas afirmativas, basta considerar a importância dos eventos que ocorrem durante essa fase do sistema de produção, quais sejam:

a) Trata-se do período de maior consumo de ração.
b) É a fase onde ocorre a maior deposição de gordura nas carcaças dos animais.
c) É a fase onde as mortes representam o maior prejuízo.
d) É a fase onde as enfermidades se manifestam com maior intensidade.
e) É a fase onde se define a bonificação de carcaças.
f) É a fase onde deve ocorrer a maior vigilância em relação ao controle da Segurança Alimentar.
g) É a fase onde apenas o ultimo mês de terminação representa 16% do tempo de vida e 29% do consumo de ração, considerando-se um suíno de 120 kg de peso com 170 dias de idade.

Por tudo isso, fica evidente a necessidade dos produtores estarem cada vez mais focados nos fatores que determinam a eficiência geral de uma unidade de terminação e que podem ser resumidos nos seguintes:

1) Consumo de ração
2) Conversão Alimentar
3) Taxa de crescimento
4) Mortalidade

1) Consumo de ração:

Todas as unidades de terminação, necessitam de um bom método para poder mensurar o consumo de ração. O ideal é a pesagem de toda ração que é fornecida no setor, com identificação imediata de quedas de consumo, que na maioria das vezes revelam falhas de manejo. Os consumos podem ser mensurados por volume ou por peso, sendo este o método mais preciso. O consumo inclui a ingestão propriamente dita e o desperdício em torno dos comedouros. Muitas vezes o desperdício é a principal causa dos problemas de conversão alimentar e pode ser corrigido por meio de ajustes nos comedouros.

Fica evidente a necessidade dos produtores estarem cada vez mais focados nos fatores que determinam a eficiência geral de uma unidade de terminação.

2) Conversão Alimentar:

Provavelmente o parâmetro mais importante de avaliação de desempenho em termos econômicos na fase de crescimento e terminação, é a conversão alimentar. Uma vez que o produtor tenha controles efetivos e dados precisos de consumos, a conversão alimentar pode ser facilmente determinada, sendo necessário apenas conhecer os pesos de entrada e saída dos animais.
O que pode ser considerado um bom resultado de conversão alimentar?
Com a tendência de elevar o peso de abate dos animais, podemos considerar uma conversão alimentar competitiva quando os animais dos 22 aos 110kg de peso, atingem uma conversão alimentar inferior a 2.6.

Principais fatores que influenciam negativamente a conversão alimentar:

a) Desperdício de ração:
Ajustes de comedouros podem reduzir a conversão alimentar de 0.1 a 0.2 representando de R$ 10 a 12 por suíno terminado de 120kg.

b) Granulometria:
A granulometria ideal é de 600 a 800 mícron (peneira de 2.5 a 3.0 mm). Para cada 100 mícron de redução no tamanho da partícula, podemos esperar uma melhora de 1,2% na conversão alimentar.

c) Qualidade das matérias primas:
Devemos considerar muito especialmente as diferentes toxinas produzidas por fungos e que atingem e comprometem a qualidade do milho, considerado o insumo básico das dietas dos suínos. As toxinas produzem uma imunodepressão nos animais com interferência muita negativa sobre as taxas de crescimento.

d) Doenças respiratórias:
As doenças respiratórias possuem um forte impacto sobre a taxa de crescimento (-17% no GMD e -14% na Conversão Alimentar.) logo o seu monitoramento com programas adequados de vacinação e de práticas de manejo “all in all out” são de fundamental importância.

e) Rações diferenciadas por sexo:
Sabe-se que os castrados consomem mais ração e por isso possuem um ganho de peso diário (GMD) superior às fêmeas, piorando por conseqüência a qualidade da carcaça pela maior deposição de gordura. Já as fêmeas necessitam dietas mais concentradas com aporte maior de lisina, e normalmente convertem melhor os alimentos apresentando carcaças de melhor qualidade. Conclui-se, portanto que a partir do momento em que diferenciarmos as dietas de acordo com o sexo, estaremos racionalizando os custos e otimizando o desempenho dos animais.

3) Taxa de crescimento:
A taxa de crescimento que normalmente é mensurada pelo GMD, constitui-se em importante fator de desempenho. A compilação de registros precisos permite a elaboração de curvas de crescimento de acordo com a categoria dos animais que estão em avaliação, bem como de sua origem genética. Uma vez estabelecidas às curvas de crescimento, as mesmas passam a servir de balizadores para mensuração da taxa de crescimento bem como para adoção de estratégias nutricionais por fases do ciclo de produção.

4) Mortalidade:

A mortalidade é uma das formas de monitorar o estado sanitário  do rebanho. Em unidades tecnificadas de produção intensiva, a mortalidade deve ser inferior a 2%. Mesmo que a mortalidade seja relativamente baixa, várias doenças podem afetar negativamente o desempenho dos animais, havendo por isso necessidade de monitorar o estado sanitário dos animais em todas as fases de produção, especialmente na terminação. Procedimentos rápidos e precisos de diagnósticos, bem como exames “post-mortem” e durante os abates, devem fazer parte do programa de monitoramento sanitário dos suínos.

* Este artigo é assinado pelo diretor técnico da Genetiporc do Brasil, Dr. Werner Meincke
Fonte: Genetiporc
Publicado por suino.com

domingo, 3 de outubro de 2010

Salmonella e Resistência a Antimicrobianos: Desafios Contemporâneos na Produção de Suínos

1- Introdução
A produção mundial de suínos tem apresentado um crescimento constante ao longo dos últimos anos em resposta à maior demanda de carne suína pelo mercado internacional. Para enfrentar este desafio, os sistemas de produção tornaram-se mais intensivos e eficientes do ponto de vista econômico-produtivo. Em função desta intensificação e de uma crescente valorização da percepção dos consumidores, novos desafios emergem e se destacam mundialmente, tais como:
I) impacto ambiental causado pelos sistemas de produção
II) bem-estar dos animais alojados nos sistemas de produção, e
III) segurança dos alimentos produzidos (i.e., riscos associados à carne suína).
À medida que a indústria de produção de suínos brasileira ganha evidência no mercado internacional, torna-se extremamente importante levar em consideração estes desafios, os quais podem vir a afetar a sustentabilidade desta expansão. A indústria suinícola brasileira tem trabalhado intensamente para garantir a qualidade e a segurança da carne suína, desenvolvendo e incorporando técnicas de produção e sanidade que reduzem riscos sanitários aos animais, e consequentemente, à sua carne. A segurança dos alimentos é uma questão crítica no mercado global de carne suína, e contaminações por Salmonella constituem uma grande preocupação para a indústria. Salmonelose é uma das zoonoses mais comuns transmitidas por alimentos, com distribuição mundial e uma incidência que aumentou significativamente nos últimos anos, gerando uma conscientização pública crescente quanto aos riscos microbiológicos associados aos alimentos. As infecções por Salmonella em suínos são preocupantes por duas razões principais; primeiro, devido à doença clínica nos suínos (salmonelose), e segundo, porque os suínos são susceptíveis a infecções subclínicas com uma ampla variedade de sorotipos de Salmonella, constituindo uma fonte potencial de exposição humana à bactéria, através da contaminação das carcaças ao longo da linha de abate.
2- Salmonella nos sistemas de produção de suínos: Uma visão geral
O número potencial de fontes de infecção por Salmonella para uma população de suínos é aparentemente interminável, principalmente devido à diversidade e à biologia do gênero Salmonella. Sua transmissão entre hospedeiros ocorre principalmente via
fecal-oral, no entanto, experimentos com aerossóis têm mostrado que as infecções com Salmonella podem também ocorrer por esta via.
Embora a infecção com uma grande quantidade de Salmonella (i.e., dose infectante elevada) seja necessária para iniciar a doença clínica, tem sido demonstrado por vários estudos que os suínos infectados com baixas doses (102-104 unidades formadoras de colônias) de Salmonella Typhimurium desenvolvem infecção persistente e permanecem portadores por várias semanas, sem qualquer sinal clínico (ou seja, subclinicamente). Além disso, os animais infectados constitutem um importante reservatório e fonte de introdução e transmissão de Salmonella na granja. A excreção de Salmonella nas fezes é suficiente para servir como uma fonte de infecção, dentro da mesma baia ou do mesmo galpão, através da contaminação das instalações. Infecções subclínicas são muito importantes, especialmente quando os suínos provenientes de várias fontes são misturados em baias/granjas de crescimento e/ou terminação. Além disso, suínos infectados com Salmonella tem sido encontrados em rebanhos reprodutores, que podem constituir uma fonte de infecção muito importante, muitas vezes passando desapercebida. Leitoas de reposição podem albergar a bactéria, servindo como fonte de introdução e/ou manutenção da bactéria nos plantéis de reprodução.
Embora a transmissão horizontal de Salmonella ocorra através da transmissão fecal-oral ou aerógena, outros vetores devem ser considerados quando se discute a introdução e disseminação da bactéria nas granjas. Outras fontes de contaminação incluem: roedores, insetos, aves, outras espécies animais, os seres humanos e ração contaminada. Em amostras de fezes de roedores foram encontradas até 105 unidades formadoras de colônia de Salmonella, enquanto que gatos e pássaros têm sido freqüentemente associados à contaminação de depósitos de grãos e rações prontas. Moscas e poeira também podem agir como vetores mecânicos, que espalham Salmonella por todo o ambiente.
A alimentação animal é uma fonte reconhecida de Salmonella. Caminhões, silos e os próprios ingredientes das rações (principalmente, os de origem animal) também têm sido implicados como fontes potenciais de contaminação e infecção dos animais. A água não é uma fonte provável de infecção, a menos que esta seja de superfície, a qual roedores e pássaros podem contaminar, aumentando a possibilidade de propagação da infecção no rebanho. Entretanto, é importante ressaltar que Salmonella (assim como diversas outras bactérias) tem a capacidade de formar biofilmes em tubos e tubulações de água, gerando uma fonte potencial de manutenção e disseminação na granja.
O próprio ambiente de granja (i.e., instalações e equipamentos) podem tornar-se persistentemente contaminados com Salmonella após a introdução da bactéria no rebanho, contribuindo para a propagação e manutenção da bactéria. Salmonella pode persistir no ambiente por longos períodos de tempo, e procedimentos de limpeza e desinfecção rotineiros nem sempre são eficientes na eliminação da contaminação. As bactérias do gênero Salmonella são resistentes, sobrevivendo ao congelamento e desidratação, e persistem por semanas, meses ou mesmo anos, quando protegidas por um substrato orgânico adequado. Resultados de vários estudos demonstram claramente que o ambiente desempenha um papel fundamental na epidemiologia da infecção por Salmonella em suínos.
3- O que acontece entre a granja e o frigorífico?
Diversos estudos epidemiológicos tem demonstrado que um número substancial de suínos carream Salmonella ao entrarem na linha de abate. Nestes animais, o trato intestinal e seus gânglios linfáticos estão frequentemente infectados e proporcionam uma fonte de Salmonella, que pode ser distribuída ao longo da linha de abate e processamento, gerando a contaminação das carcaças e outros produtos alimentícios. Como a principal fonte de contaminação da carcaça é o conteúdo intestinal, o grau de contaminação da carcaça é determinado pelo número (ou nível) de Salmonella que entra no frigorífico no trato intestinal dos suínos abatidos. Dessa forma, embora grande parte da contaminação por Salmonella da carne suína e produtos derivados ocorra durante o abate e processamento, suínos infectados que deixam a granja e suínos infectados imediatamente antes de entrarem na linha de abate, são considerados como a fonte original de contaminações do frigorífico. Tem sido demonstrado que o tempo de transporte (e condições deste), o manejo alimentar (i.e., restrição ou jejum), a contaminação ambiental (dos caminhões de transporte, das baias de espera, etc.), a mistura de animais, e o tempo de espera antes do abate, afetam a frequência e os níveis de infecção por Salmonella em grupos de suínos.
A disseminação inaparente de Salmonella durante o processo de transporte da granja ao frigorífico pode ser exacerbada por uma longa lista de fatores estressantes. Durante o carregamento, transporte e descarga, os suínos são expostos a vários fatores estressantes, incluindo: sons e cheiros estranhos, vibração, mudanças de temperatura, mudança de grupos sociais, privação de alimentos e água, etc. Deste modo, o número de suínos que disseminam Salmonella é amplificado após todos esses fatores, assim como a sua susceptibilidade a novas infecções. É sabido que o estresse afeta o sistema imunológico, e consequentemente, o status imunológico dos animais submetidos a ele. No entanto, há crescentes evidências de efeitos diretos do estresse (e seus mediadores fisiológicos - cortisol, epinefrina, norepinefrina, dopamina e outros) sobre as populações microbianas gastrointestinais, especificamente Salmonella, promovendo seu crescimento e expressão de fatores de virulência.
Com base em vários estudos realizados em diferentes países, sabe-se que esse período pré-abate (momento quando os animais são movidos das granjas produtoras para os frigoríficos) é um ponto crítico de amplificação de Salmonella ao longo da produção de suínos e da cadeia de abate e processamento.
4- Salmonella: Como enfrentar esse desafio?
A complexa ecologia e epidemiologia da Salmonella nas populações suínas tem sido revelada através de numerosos estudos em diversos países, onde as variações são encontradas em diferentes sistemas de produção. Essa complexidade pode ser claramente evidenciada pela variedade de fatores de risco encontrados em vários estudos epidemiológicos publicados nos últimos anos.
Obviamente, Salmonella constitui um desafio complexo e multifatorial. Intervenções devem ir além do paradigma tradicional seguido para as doenças infecciosas típicas (i.e., de transmissão direta), adotando-se uma perspectiva ampla e dinâmica dos
ecossistemas (com um forte componente ambiental). Medidas de controle devem ser aplicadas para impedir a sua introdução e reintrodução através de fontes variadas, conforme discutido anteriormente. A presença de Salmonella (assim como o seu nível, ou concentração) em fontes potenciais, deve ser monitorada. Depois de sua introdução em um sistema de produção, o que é comum, os esforços devem concentrar-se na redução da sua propagação. Na maioria dos casos, a erradicação não é viável (e talvez, impossível). Esforços de controle devem ser voltados para a redução da prevalência de portadores da bactéria que deixam o sistema de produção para o mercado/abate. No entanto, com exceção dos princípios gerais de higiene e biosegurança, há uma pesquisa limitada sobre medidas específicas que afetam a prevalência no rebanho. A partir da saída dos animais do sistema de produção com destino ao frigorífico, esforços devem ser direcionados para a redução da exposição ao estresse. Além disso, a redução dos níveis de contaminação/exposição no caminhão de transporte e nas baias de espera pré-abate é fundamental. Segregação durante o transporte e a espera pré-abate deve ser considerada, especialmente quando os rebanhos são rotineiramente monitorados. Para a indústria de produção de suínos ser capaz de responder ao desafio imposto pela contaminação persistente de Salmonella, é fundamental desenvolver um conhecimento sólido sobre a ecologia e epidemiologia dessa bactéria em diferentes sistemas de produção. Fatores de risco atenuantes e aplicação de estratégias de intervenção específica devem constituir a base de qualquer programa de prevenção e controle. Além disso, uma variedade de ferramentas estão disponíveis para serem aplicadas na produção (probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos, vacinas, bacteriófagos, etc), embora exista uma clara necessidade de validação da sua eficácia e consistência. A escolha da estratégia a ser aplicada deve ser baseada no objetivo da intervenção. Quando o objetivo for minimizar o risco de infecções e disseminação da bactéria no rebanho, o foco deve ser direcionado para os animais jovens nos sistemas de produção (em especial os leitões de creche). Neste caso, o uso de vacinas e aditivos para alimentação animal parecem representar abordagens interessantes. No entanto, quando o objetivo for minimizar a freqüência de Salmonella presente e os níveis da bactéria carreada para os frigoríficos, o foco deve ser direcionado para animais em fase de terminação, especialmente, durante as semanas que antecedem ao abate. Neste caso, o uso de bacteriófagos, controle do estresse, e descontaminação dos caminhões de transporte e baias de espera constituem pontos fundamentais a serem observados.
5- Mais um desafio: Resistência a antimicrobianos
A crescente ocorrência de resistência a agentes antimicrobianos utilizados no tratamento de infecções em humanos tem recebido grande atenção, assumindo um papel de destaque na saúde pública mundial. Intensas discussões sobre a utilização de antimicrobianos na produção animal, particularmente como promotores de crescimento, são constantes. Entretanto, devido ao grande número de variáveis envolvidas, evidências quanto ao risco associado à utilização de antimicrobianos na produção de animais são limitadas. Do ponto de vista de segurança dos alimentos de origem suína, os riscos estariam baseados nas seguintes possibilidades:
1) consumo de carne suína contaminada com patógenos resistentes (e.g., Salmonella), 2) consumo de carne suína contaminada com bactérias comensais (i.e., não patogênicas) portadoras de genes de resistência a serem transferidos para populações bacterianas habitantes do trato intestinal humano, e 3) consumo de resíduos de antimicrobianos na carne suína que selecionaria amostras bacterianas resistentes no trato intestinal humano.
Em função destes riscos presumidos, restrições tem sido impostas para a utilização de agentes antimicrobianos na produção animal. Entretanto, revisões recentes de dados referentes aos efeitos da proibição de antibióticos como promotores de crescimento na Europa concluem que do ponto de vista de saúde pública, os benefícios foram mínimos ou inexistentes. Na realidade, houve um aumento do risco de infecções por patógenos de origem alimentar, devido à eliminação do efeito protetor conferido pelos antibióticos subterapêuticos utilizados na produção animal. Modelos complexos de análise de risco demonstram claramente o aumento do risco de ocorrência de patógenos de origem alimentar, e consequentemente, do risco de infecções em humanos, devido à restrição da utilização de antibióticos na produção animal. Poucos estudos epidemiológicos de campo foram realizados até o momento, devido a inúmeras dificuldades e limitações. Entretanto, resultados iniciais apontam para uma prevalência significativamente mais elevada de Salmonella em rebanhos de suínos criados sem a utilização de antimicrobianos. Mais estudos são urgentemente necessários nesta área a fim de conhecermos melhor a real situação e suas implicações. Apesar de existirem muitas opiniões sobre o impacto do uso de antimicrobianos na produção animal sobre a saúde humana, tem sido muito dificil obter evidências concretas sobre os danos causados por esse uso. Em 1997, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que "a magnitude do impacto médico e de saúde pública do uso de antimicrobianos no produção animal é desconhecida". Mais recentemente, um grupo de especialistas europeus concluiu que "a extensão presente da exposição a bactérias resistentes a antimicrobianos é difícil de se determinar, e o papel dos alimentos na transferência de genes de resistência ainda é insuficientemente estudado". Uma revisão extensa realizada nos Estados Unidos afirmou que "a extensão em que o uso de antibióticos em animais de produção gera infecções resistentes a antibióticos clinicalmente importantes em humanos é desconhecida". A seguinte passagem extraída de uma revisão realizada pela Autoridade Européia de Segurança dos Alimentos (EFSA) destaca o estado de incerteza: "É desconhecido se bactérias resistentes a antimicrobianos sobrevivem ou se multiplicam durante estágios da cadeia alimentar (e.g., processamento, cozimento, etc.) em maior grau do que bactérias susceptíveis. Do mesmo modo, em termos das características dose-resposta, existem dados muito limitados sobre a possibilidade de bactérias resistentes serem mais patogênicas ou causarem doenças mais severas do que as equivalentes susceptíveis a antibióticos. Além disso, é muito difícil, através de dados muito escasos, considerar apropriadamente a significância de genes de resistência transferíveis e seu impacto indireto sobre a saúde humana". De forma semelhante, uma revisão realizada por cientistas do FDA concluiu que "apesar de pesquisas ligarem o uso de antibióticos na agricultura à emergência de patógenos alimentares resistentes a antibióticos, o debate ainda continua se este papel é significativo o suficiente para justificar regulamentação e restrição". Olhando adiante, é muito difícil imaginar que o futuro não traga mais regulamentações e restrições quanto ao uso de antimicrobianos na produção animal. Pressões e decisões de base emocional e política (sem fundamentos técnico-científicos) são cada vez mais frequentes e visíveis. A indústria de produção animal deve antecipar o futuro com um arsenal reduzido de antimicrobianos disponíveis. A taxa/velocidade de mudança de cenário deve variar muito entre países. Entretanto, a indústria de produção de alimentos de origem animal com aspirações ao mercado internacional deverá obrigatoriamente antecipar que o acesso ao mercado será influenciado pelas políticas de uso de antimicrobianos, pelo menos para os mercados mais protegidos

AUTOR: Marcos H. Rostagno (Research Animal Scientist-USDA-ARS / Purdue University), Leticia G. Morais

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Importação de produtos veterinários está mais simples

Os procedimentos para importação de produtos de uso veterinário e os destinados à alimentação animal estão mais simples, tanto para pecuaristas como para aqueles que lidam com pequenos animais. Isso porque a Instrução Normativa nº 29 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicada neste mês, simplificou o processo, mantendo as exigências de segurança e garantia da rastreabilidade (procedência) dos produtos, como medicamentos, rações, kits de diagnóstico e material para pesquisa.

De acordo com as novas regras, os fiscais do Mapa vão se concentrar nos produtos que representam risco à saúde dos animais e dos consumidores sendo que a nova legislação estabelece que o importador ou seu representante legal deve apresentar um requerimento ao Ministério da Agricultura, conforme modelo especificado na Instrução Normativa. O documento, que foi simplificado, agora é exigido apenas para os produtos que precisam de autorização prévia como, por exemplo, as rações com proteína animal que demandam atenção especial por causa do controle da Encefalopatia Espongiforme Bovina (conhecida como "mal da vaca louca").

"O serviço de inspeção reavaliou o risco da atividade de importação desses produtos e poderemos reduzir até pela metade o trabalho de análise das importações", informou Adauto Lima Rodrigues, chefe substituto do Departamento de Fiscalização de Insumos Pecuários (DFIP) do ministério. Segundo ele, atualmente o processo pode levar até 52 dias para ser concluído.

Na avaliação do presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de Mato Grosso (CRMV-MT), Valney Souza Corrêa, a Instrução Normatiza é de fundamental importância para o segmento, pois a fiscalização e controle vão de encontro com a demanda do setor produtivo. Isso com base na avaliação de risco quanto a segurança para a saúde dos animais e, também, dos consumidores de produtos de origem animal.

A exigência não será necessária para os produtos já registrados no Mapa ou com isenção de registro conforme a legislação nacional. Nessa categoria estão incluídos vitaminas e alguns ingredientes usados na fabricação de pet food. O aperfeiçoamento da norma foi baseado em auditorias realizadas no ano passado por fiscais federais agropecuários em São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Em 2009 foram realizadas 8.615 análises para liberação de importação de produtos relacionados à alimentação animal.

A norma determina ainda que o importador siga os critérios para registro no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). Além disso, orienta como deve ser preenchido o formulário de Licenciamento de Importação (LI) do Siscomex e especifica procedimentos a serem seguidos na solicitação da entrada de cada tipo de produto no Brasil. Só estão excluídos dessa norma produtos mastigáveis vendidos como alimento para cães e gatos.

Fonte: Gazeta Digital (http://www.suinoculturaindustrial.com.br/PortalGessulli/WebSite/Noticias/importacao-de-produtos-veterinarios-esta-mais-simples,20100927104709_S_204,20081118090857_O_477.aspx)

Importação de produtos veterinários está mais simples

Os procedimentos para importação de produtos de uso veterinário e os destinados à alimentação animal estão mais simples, tanto para pecuaristas como para aqueles que lidam com pequenos animais. Isso porque a Instrução Normativa nº 29 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicada neste mês, simplificou o processo, mantendo as exigências de segurança e garantia da rastreabilidade (procedência) dos produtos, como medicamentos, rações, kits de diagnóstico e material para pesquisa.

De acordo com as novas regras, os fiscais do Mapa vão se concentrar nos produtos que representam risco à saúde dos animais e dos consumidores sendo que a nova legislação estabelece que o importador ou seu representante legal deve apresentar um requerimento ao Ministério da Agricultura, conforme modelo especificado na Instrução Normativa. O documento, que foi simplificado, agora é exigido apenas para os produtos que precisam de autorização prévia como, por exemplo, as rações com proteína animal que demandam atenção especial por causa do controle da Encefalopatia Espongiforme Bovina (conhecida como "mal da vaca louca").

"O serviço de inspeção reavaliou o risco da atividade de importação desses produtos e poderemos reduzir até pela metade o trabalho de análise das importações", informou Adauto Lima Rodrigues, chefe substituto do Departamento de Fiscalização de Insumos Pecuários (DFIP) do ministério. Segundo ele, atualmente o processo pode levar até 52 dias para ser concluído.

Na avaliação do presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de Mato Grosso (CRMV-MT), Valney Souza Corrêa, a Instrução Normatiza é de fundamental importância para o segmento, pois a fiscalização e controle vão de encontro com a demanda do setor produtivo. Isso com base na avaliação de risco quanto a segurança para a saúde dos animais e, também, dos consumidores de produtos de origem animal.

A exigência não será necessária para os produtos já registrados no Mapa ou com isenção de registro conforme a legislação nacional. Nessa categoria estão incluídos vitaminas e alguns ingredientes usados na fabricação de pet food. O aperfeiçoamento da norma foi baseado em auditorias realizadas no ano passado por fiscais federais agropecuários em São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Em 2009 foram realizadas 8.615 análises para liberação de importação de produtos relacionados à alimentação animal.

A norma determina ainda que o importador siga os critérios para registro no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). Além disso, orienta como deve ser preenchido o formulário de Licenciamento de Importação (LI) do Siscomex e especifica procedimentos a serem seguidos na solicitação da entrada de cada tipo de produto no Brasil. Só estão excluídos dessa norma produtos mastigáveis vendidos como alimento para cães e gatos.

Fonte: Gazeta Digital (http://www.suinoculturaindustrial.com.br/PortalGessulli/WebSite/Noticias/importacao-de-produtos-veterinarios-esta-mais-simples,20100927104709_S_204,20081118090857_O_477.aspx)

Suíno em alta na China

Até julho de 2010, os preços das carne suína na China atingiram as menores cotações de todos os tempo. Porém, agora na segunda quinzena de setembro os preços iniciam recuperação e registram aumento de 3,6% na comparação com os preços registrados no mesmo período de 2009.

O aumento da carne suína também impulsionou o valor da carne de frango. Segundo a consultoria Frbiz.com, o mercado avícola e suinícola têm garantido lucro às indústrias de carnes.

A consultoria também acredita que o aumento na carne suína deve continuar. A China tem registrado um decréscimo no plantel desde o ano passado. Com o menor número de animais do mercado, aliados ao aumento da demanda por carne suína no quatro trimestre [pico de consumo no país], a carne suína deve seguir valorizada, criando um ambiente lucrativo para abatedores de suínos e empresas. As informações são do site internacional Pig Progress.
Fonte: Redação Suinocultura Industrial (http://www.suinoculturaindustrial.com.br/PortalGessulli/WebSite/Noticias/suino-em-alta-na-china,20100927143620_K_885,20081118093812_F_643.aspx)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Uma Visão sobre a Sunocultura por Folador

Suinocultura atual na visão de Folador

A suinocultura gaúcha atravessa um momento "bipolar". De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), o Rio Grande do Sul liderou o ranking das exportações brasileiras de carne suína de janeiro a agosto deste ano. No entanto, para o presidente da Associação dos Criadores de Suínos do RS (Acsurs), a rentabilidade do produtor ainda é muito baixa.

Em entrevista divulgada pela assessoria da entidade, Folador faz uma análise do atual sistema de produção de suínos do Estado, independente e integrado, fala das fusões agroindustriais, e também faz projeções para o cenário da suinocultura gaúcha para os próximos anos. O presidente da Acsurs também aborda a questão da rastreabilidade dos animais e questões ambientais. Leia a íntegra da entrevista.

Como a Acsurs analisa o atual sistema de produção de suínos no RS, considerando a produção independente e a integração?

Folador- A produção de suínos no RS, a partir de meados da década de 80, iniciou um processo de integração, com o objetivo de padronizar e melhorar a produção de suínos, tanto na oferta de animais para a agroindústria, buscando uma constância de entrega de suínos, quanto para melhorar os padrões técnicos, índices de eficiência, produção, produtividade, visando qualificar o suinocultor cada vez mais.

A partir da década de 90, o sistema de integração se intensificou ainda mais e, posteriormente, após o ano 2000, o sistema de integração tomou um caminho sem volta, pois, além da integração, o suinocultor passou a ser verticalizado, atuando por setores. A partir daí, o produtor deixou de ser dono de seu plantel e tornou-se um prestador de serviço na produção suinícola.

Isto trouxe vantagens como o aumento de produtividade, uma oferta constante para a agroindústria, uma padronização dos animais produzidos. Porém, em relação à rentabilidade, o suinocultor teve muitas perdas, pois no sistema de mercado livre, ou seja, o produtor independente, tendo sua própria produção, sendo dono de seu plantel e podendo adquirir os insumos para sua produção, de acordo com sua demanda específica, tinha um capital muito maior em seu poder.

Hoje, como prestador de serviço na produção de suínos, ele não tem capital nenhum, a não ser sua propriedade e suas instalações. Os suínos não são mais seus. Houve uma grande redução no capital dos produtores.

É um sistema que não tem mais volta, pois está consolidado, e faz-se necessário buscar dentro da questão da integração a rentabilidade, a remuneração do produtor, para que atenda às exigências econômicas e financeiras das granjas e das necessidades que o produtor tem.

Quais os percentuais aproximados de suínos terminados no sistema de parceria e na produção independente no RS?

Folador- Hoje, não existem mais suinocultores independentes. Eles tornaram-se inter-independentes, tendo em vista que não possuem um contrato de integração com as agroindústrias, mas definem sua produção de acordo com uma demanda específica pré-acordada com determinada empresa.

Atualmente, em torno de 70 a 80% dos suinocultores gaúchos fazem parte do sistema de integração, que possuem contrato formalizado, e, em torno de 20% dos produtores atuam no mercado independente, sem contrato formalizado.

Como a Acsurs analisa a fusão ou as aquisições que estão ocorrendo entre as agroindústrias no setor de carnes, especialmente as ligas à suinocultura? Que consequências positivas ou negativas poderão ocorrer?

Folador- Na avaliação da Acsurs, a grande concentração das empresas é algo negativo para a concorrência, para os produtores, fornecedores de insumos e consumidores, pois nós concentramos a produção na mão de poucos, no caso da agroindústria.

Tanto as empresas que realizam fusões quanto as agroindústrias, têm um discurso de que vão reduzir custos e, com isso, vão oferecer seus produtos com custos menores ao consumidor. Na prática, isto não tem ocorrido.

Logo, observamos que esta é uma situação definida, que não haverá mudanças. É uma tendência que está ocorrendo em vários segmentos. A concentração e o monopólio de empresas não é algo benéfico para ninguém, a não ser para quem os cria.

Para os suinocultores, isto acaba acarretando no aumento do nível de exigência da produção, da produtividade, na qualificação que tem que ser cada vez melhor, investindo cada vez mais e, em contrapartida, a remuneração que o produtor recebe não é equivalente às exigências de produção. Estas concentrações de empresas e fusões causam mais dificuldades para os suinocultores.

A questão da rastreabilidade da carne suína representa alguma dificuldade para o setor? Vai afetar os produtores integrados? Os independentes?

Folador- Não encaramos a rastreabilidade como uma dificuldade, pois é uma necessidade, tendo em vista a evolução da produção, e, principalmente, tendo em vista que os consumidores atualmente estão muito exigentes, buscando também uma segurança alimentar, e, além disto, querendo saber de onde vêm os produtos que ele consome especialmente a carne.

O único ponto negativo neste contexto é nas consequências econômicas para os suinocultores, pois lhe é exigido que invista cada vez mais em melhorias como biossegurança, cercamento de granjas, enfim, fazer tudo aquilo que é necessário para garantir a rastreabilidade dentro dos padrões exigidos.

Porém, estes investimentos não são incluídos dentro dos custos de produção dos suínos. Ele necessita que estes investimentos tenham um retorno econômi-financeiro e não simplesmente fazê-los para atender exigências, sem retornos financeiros. Ele precisa deste retorno.

Considerando-se que algumas indústrias do setor de carnes estão migrando para o Centro Oeste do país pelas disponibilidades de insumos para a alimentação animal, este fator trás algumas consequências para a suinocultura gaúcha?

Folador- Acredita-se que a consequência deste movimento é o achatamento dos preços pagos aos produtores aqui no Estado. Pois, como no Centro Oeste tem-se a disponibilidade de grãos a um custo menor, isto acaba dando uma vantagem para os produtores de carne daquela região. Acaba competindo diretamente com os custos que temos no RS.

Quando o mercado não paga o preço necessário, ou seja, enfrenta uma crise, os elos da cadeia acabam “empurrando” o ônus desta competitividade de mercado para o produtor, que acaba recendo menos.

A produção suinícola do Rio Grande do Sul vai seguir produzindo e não vai migrar para o Centro Oeste. Temos em nosso Estado um complexo industrial instalado e consolidado, temos os produtores, mão-de-obra abundante para seguir com a produção de suínos e aves.

Já no Centro Oeste tem-se as vantagens do clima, terreno, espaço, do custo de produção menor. Porém, não tem a disponibilidade da mão-de-obra que temos no RS. Pode-se automatizar até certo ponto, tanto na indústria quanto na produção, pode-se utilizar a automação. No entanto, há certas situações e demandas que não substituem de forma alguma a mão-de-obra, que temos aqui.

Hoje, a região Centro Oeste não ameaça a produção que temos no Rio Grande do Sul.

Em termos de capacidade de produção e industrialização no setor, o RS tem como expandir?

Folador- Avaliando as atuais instalações das granjas e das indústrias, observa-se que as indústrias existentes estão com sua capacidade de absorção da produção suinícola esgotada, tendo em vista os atuais níveis de produção no Estado.

Haveria capacidade de expansão, desde que fossem construídas novas plantas industriais no Rio Grande do Sul. Há espaço para ampliar a produção de suínos em nosso Estado.

Quais são as potencialidades da suinocultura gaúcha (pontos fortes) na visão da Acsurs (incluindo os fatores que tornam a carne suína do RS mais competitiva no mercado)?

Folador- As potencialidades que temos são a produção, a mão-de-obra qualificada, a qualificação de nossa produção, tendo em vista seus parâmetros técnicos e sanitários excelentes. São os principais pontos positivos que fazem o diferencial da suinocultura gaúcha.

O produtor tem uma dedicação e um empenho muito grande na produção, fazendo tudo aquilo que é necessário para atender as normas, tanto sanitárias quanto ambientais. Estes fatores fazem da carne suína muito competitiva, comparando com outros Estados. Não perdemos em nenhum aspecto quando nossa produção é comparada com outros Estados. O que se produz em Santa Catarina, no Paraná, no Centro Oeste, se produz aqui também.

A questão da logística, por estarmos um pouco distantes dos grandes centros consumidores, como São Paulo, Rio de Janeiro e a região nordeste, talvez, seja um dos pontos que nos traga certa desvantagem com outros Estados produtores, que se encontram mais próximos destes mercados.

Quais as principais dificuldades enfrentadas pela suinocultura gaúcha?

Folador- A principal dificuldade enfrentada pelos suinocultores gaúchos é a rentabilidade muito baixa, tendo em vista o pouco retorno financeiro que tem na atividade, em função dos investimentos que ele precisa fazer para manter-se na atividade. O suinocultor precisa ser mais remunerado. É o principal ponto de estrangulamento do produtor, pois ele está envelhecendo, sua idade média é alta, seus filhos não estão ficando na atividade, pois a rentabilidade é muito pequena. O que lhe é imposto e exigido é muito maior do que ele recebe.

Hoje, para ser suinocultor, é preciso trabalhar 365 dias por ano. Não se tem Natal, Páscoa, 1º dia do ano, que não tenha de estar dentro da granja alimentando e cuidando dos suínos, fazendo o que é necessário na produção. Esta dedicação e trabalho precisa ser mais bem remunerada.

Qual é o cenário futuro da suinocultura no RS na visão da ACSURS, considerando as questões de número de produtores no setor e de produção? Qual será o “tamanho das granjas ou dos terminadores”?

Folador- O que se percebe é que o número de produtores está diminuindo e o número de suínos nas propriedades está aumentando. As empresas integradoras fazem isto visando à redução de seus custos de transportes, assistência técnica, entre outros.

Porém, sabemos que no RS 90% da suinocultura é feita em pequenas propriedades. Além disto, temos um limitador ambiental, pois há leis ambientais estaduais e federais que determina um número máximo de animais por área fixa, tendo em vista os dejetos produzidos pelos suínos. Hoje, em relação aos produtores terminadores, não se pode colocar em uma propriedade com 5 ou 10 hectares, dois ou três mil animais.

O porte médio dos terminadores deve ter algum ajuste à maior nos próximos anos. A tendência é que deva ocorrer uma queda no número de produtos no Estado principalmente em virtude de questões ambientais, em função da produção dos dejetos.

As mudanças no código florestal poderão beneficiar o setor? De que maneira?

Folador- O código florestal, caso realmente seja trabalhado de forma coerente, como já foi exposto na Câmara Federal, pensando realmente na sustentabilidade ambiental, acredita-se que ele venha ao encontro da necessidade de nossos suinocultores.

É necessário que seja consolidado o que está em vigor atualmente, pois não podemos ignorar o que já existe, ainda que adequações à legislação vigente sejam necessárias. Porém, não pode haver radicalizações por parte dos ambientalistas prejudicando os produtores rurais, forçando-os a se retirarem para as cidades, influenciando o êxodo rural.

De que maneiras o governo federal e estadual poderiam contribuir para melhorar a situação da suinocultura no RS?

Folador- O principal ponto que o governo poderia contribuir para melhorar a situação da suinocultura no Estado é em relação à carga tributária, que atualmente é muito alta, principalmente dos produtos derivados de suínos. Isto seria um ponto que poderia beneficiar a cadeia suinícola como um todo, ainda que esse benefício não chegue ao bolso do produtor.

Outro ponto á nível de Governo Federal que poderia ser trabalhado para beneficiar os produtores, é a questão da regulação dos contratos estabelecidos entre os produtores e às indústrias, buscando uma maior equidade entre as partes. Atualmente, os contratos são unilaterais, nos quais os produtores têm 90% de deveres e 10% de direitos. Faz-se necessária uma lei para regulamentar esta atividade, que estás sendo buscada de forma pacífica, com muito diálogo, sem conflitos ou atritos.